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Caso de sucesso

Empresa paulista cria soluções para cadeias produtivas se tornarem circulares

Empresa paulista cria soluções para cadeias produtivas se tornarem circulares

Por Vanessa Brito

 

 Guilherme Brammer, o CEO da Boomera, que começou como start up.

Na indústria quase nada se perde e os resíduos pós-consumo se transformam em matéria-prima de novos produtos da mesma indústria. Ou seja, o ciclo produtivo não termina no consumo, retorna ao início. Este é o princípio da Boomera, empresa paulista especializada em economia circular e no desenvolvimento de soluções para resíduos complexos ou de difícil reciclabilidade.

Boomera é uma palavra de origem aborígene que significa alavanca. Também está relacionada com bumerangue, um instrumento ancestral presente em várias civilizações, que lança pedra que sempre retorna a quem a lançou. Os dois significados traduzem bem o propósito da jovem empresa: alavancar a transformação da economia linear em economia circular.

Explicando melhor: ao contrário da linear, onde o ciclo produtivo termina no consumo e os materiais descartados vão parar, quase sempre, em aterros e lixões no Brasil, na circular são consideradas as etapas do pós-consumo, o descarte, a coleta e transformação dos resíduos em matéria-prima de novos produtos da mesma cadeia produtiva. A natureza agradece, pois assim a pressão sobre os recursos naturais é reduzida.

“Queremos ser um agente de mudanças de hábitos e mudar a cabeça do consumidor. Resíduo, para nós, é exponencial. O que parece impossível, para a gente não é. Surpreendemos com projetos que geram resultados econômicos, sociais e ambientais sem fronteiras e nem limites para tornar o inimaginável possível”, declara Gustavo Fonseca, gerente de desenvolvimento de novos negócios da empresa.

Em 2016,  a Boomera foi escolhida como a melhor empresa de impacto social pela revista Pequenas Empresas Grandes Negócios e Escola de Negócios Insper, entre outros prêmios.

Empresa jovem

A história da empresa Boomera se inicia, em 2011, quando o engenheiro de materiais, Guilherme Brammer, com vasta experiência nos setores metalúrgico, celulose e reciclagem, criou a start up Wise Waste (desperdício sábio, em português) para desenvolver soluções de reciclagem.

O primeiro cliente da Wise Waste foi a Protector & Gamble, chamada por ele de ‘cliente-anjo’. Nessa época, trabalhava sozinho e desenvolveu uma tecnologia para um velho dilema ambiental: transformar fraldas descartáveis usadas em matéria-prima. Brammer criou a  solução que extrai resina do que era lixo para produzir tampas de lixeiras de fraldas descartáveis.

“O projeto começou em 2015, numa parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie”, conta Brammer. “Encontramos, em base laboratorial, uma possibilidade de esterilização das fraldas e, depois, uma forma de reaproveitar o material esterilizado”, acrescenta.

Além de obter a esterilização das fraldas, ele descobriu uma forma de quebrar as moléculas do gel super absorvente, um complicador no processo de reciclagem. “O gel sai junto com as fezes e a urina, o material é separado e  retido, triturado e transformado em resina plástica própria para injetoras de plástico”, detalha.

Após passar pela etapa de validação científica, foi criada uma linha pré-industrial, com capacidade para reciclar 10 toneladas de fraldas por mês. O primeiro produto foram cestos de lixo para descarte de fraldas. Hoje, a empresa desenvolve outras peças com a mesma resina retirada das fraldas descartáveis como cabides para roupas infantis e acessórios para bebês. “Esta solução de fraldas descartáveis é patente nossa, que só existe aqui no Brasil e é uma inovação em âmbito mundial”, informa o empresário.

Outra solução, que ficou bastante conhecida, foi a desenvolvida para a Nestlé, que transforma cápsulas de café pós-consumo em vasinhos para mudas de café e  porta-cápsulas de café feito a partir de resíduos industriais. Para a Adidas, a empresa realizou um programa de coleta de resíduos nos rios da cidade do Rio de Janeiro com os quais fez centenas de cones para a prática de futebol, que foram distribuídos, gratuitamente, entre as comunidades desfavorecidas do município.

Para a indústria de chocolate, biscoitos, salgadinhos e cosméticos,  foi criada solução de reciclagem que transforma embalagens rígidas e flexíveis em embalagens novamente. Em apenas seis anos, o empreendimento sextuplicou de tamanho e conquistou cerca de 400 clientes, entre eles, grandes cadeias produtivas de empresas como BRF, Braskem, Pepsico, P&G, Adidas, Nestlé, etc

Novo nome e tamanho

Em maio de 2017, a start up mudou o nome para Boomera, buscando se adequar `a rápida expansão do empreendimento e comprou um novo negócio: a Lonas Carreteiro, uma unidade fabril de lonas multiuso de polietileno, com tecnologias de reciclagem de plástico, da norte-americana Bemis, localizada em Cambé (PR). Esta aquisição vai permitir que a empresa salte de R$ 20 milhões/ano para R$ 100 milhões/ano até 2020, segundo estimativas e projeções.  “Talvez nos tornemos os únicos no país e no mundo, a atuar em todos os elos da cadeia produtiva circular”, diz Gustavo.

Atualmente a equipe da Boomera é constituída por cerca de 130 profissionais, que trabalham nas áreas de produção, operação, logística reversa e C2S – Ciência Forma e Função (P&D).  Brammer é o CEO e os cargos de liderança são exercidos por pessoas entre 25 e 41 anos.

Quando a empresa foi rebatizada, foi escrito um manifesto no qual missão, visão e valor ficaram assim definidas, respectivamente: o que queremos fazer; o que queremos ter; o que queremos ser.

As soluções da empresa envolvem cooperativas de catadores, pontos de coleta, fornecedores, empreendedores, empresários, executivos, entre outros. “A empresa trabalha com mais de 200 cooperativas de catadores em todo o país. O modelo de gestão envolve treinamentos, diagnósticos e planos de incremento de qualidade, visando agregar valor econômico, social e ambiental ”, afirma Gustavo.

“Atuamos em pontos de entrega voluntária, coletas em escolas, condomínios, varejo e com uma plataforma online de gestão, que permite o acompanhamento dos projetos em execução em tempo real”, ressalta  o gerente.

Cenário nacional

Vale ressaltar que a Boomera atua num cenário onde a gestão de resíduos ou lixo - como ainda são chamados os rejeitos do pós-consumo - são uma questão de difícil solução no Brasil. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010, permanece no estágio que depende de iniciativas do poder público, de investimentos, tecnologias, conscientização coletiva, enfim, caminha a passos lentos para ser colocada em prática. O Brasil continua a ser um país de muitos lixões e poucos aterros, no que tange aos resíduos domésticos e urbanos, coletados pelos serviços da limpeza urbana.

No setor produtivo, o assunto anda de modo diferente. Várias cadeias correm atrás de soluções, já que a legislação tornou compulsório o descarte final (destinação) pós-consumo junto aos fabricantes ou elos integrantes da cadeia, ao que se chama logística reversa. Resíduos complexos e perigosos não podem ser descartados em lixeiras e depositados em aterros ou lixões. Esta parte da legislação está em vigor, com fiscalização e multas.

Para empresas e indústrias, esta questão é considerada bastante desafiadora e pode custar caro. A destinação correta se tornou mais uma despesa. As soluções dentro da própria cadeia, como reaproveitamento dos resíduos, requerem conhecimento técnico-científico, além de conhecimento social, ambiental e muita criatividade. Em muitos casos, significa inventar o que ainda não existe de fato.

No momento, a Boomera está realizando estudos para gerar bônus aos consumidores, após o descarte de resíduos, como embalagens plásticas e latas de alumínio, em locais estratégicos de coleta. (www.boomera.com.br )

 

 

  • Terça-feira, 9 de Janeiro de 2018

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