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Caso de sucesso - Olibi Azeites Artesanais

Ex-executivo recupera aves apreendidas e produz azeite extravirgem no Sul de Minas

Ex-executivo recupera aves apreendidas e produz azeite extravirgem no Sul de Minas

Por Vanessa Brito

Por trás da marca Olibi Azeites Artesanais, há uma história incrível de sustentabilidade e inovação. Fazem parte dela: proteção, recuperação e soltura de aves apreendidas pelo Ibama e Polícia Florestal, vítimas de cativeiro, maus-tratos e do tráfico ilegal; produção de azeitonas, extração artesanal e comercialização de azeite extravirgem de boa qualidade; e engajamento de pessoas interessadas em apoiar a restauração e conservação ambiental, bem como, a recuperação de aves e o desenvolvimento da olivicultura brasileira.

Olibi é uma palavra tupi-guarani que significa ‘óleo da terra’. Este azeite venceu o prêmio ECO 2017 de Sustentabilidade, concedido pela Amcham (Câmara Americana de Comércio), que reconhece as empresas que mais se destacam com práticas inovadoras de sustentabilidade.

Estes são os propósitos que movem Nélio Weiss e sua fazenda Caminho do Meio, com 110 hectares e localizada no município de Aiuroca, no Sul de Minas, a serviço da natureza e da sustentabilidade.  Depois de trabalhar durante anos como consultor e executivo do setor financeiro, e de levar uma vida agitada nas capitais fluminense e paulista, Nélio se aposentou e decidiu se dedicar à pequena propriedade rural. Ele, porém, não se tornou um fazendeiro tradicional.

A fazenda fica na Serra da Mantiqueira, é vizinha do Parque Estadual Pico do Papagaio, e está a 400 km de São Paulo (SP). A primeira gleba da Caminho do Meio foi adquirida em 1997 e, dois anos depois, Nélio começou a construir a casa. Em 2000, já contava com gado leiteiro e produzia de leite. “Boa parte da área havia sido devastada, havia pouca água e raras aves voando no céu. Pensei comigo: posso reconstruir isto aqui”, conta.

Assim o ex-executivo iniciou um projeto inovador de restauração ambiental, aves e, mais tarde, com uma das primeiras plantações de oliveiras e a produção de azeite no Sul de Minas. Investiu no reflorestamento das áreas desmatadas por queimadas com mudas de pau-brasil, jacarandá, carvalho, mogno, maçaranduba, ipê, entre outras espécies da Mata Atlântica. Para atrair as aves e a fauna de volta ao seu habitat, em 2001, resolveu também plantar árvores frutíferas.

Papagaio

“O motor do projeto foi o fato de Aiuroca significar papagaio na língua tupi-guarani. O papagaio de peito roxo, típico daqui, estava em extinção. Achei um absurdo o bicho não existir mais. A cidade havia perdido seu significado original”, justifica.

A Fazenda Caminho do Meio se tornou fiel depositária do Ibama e da Política Florestal e passou a abrigar tucanos, maritacas, canários-da-terra, azulões, pássaros-preto e papagaios-de-peito-roxo. Nela são acomodados em viveiros, recebem tratamento veterinário, alimentação, medicamentos, anilhas de identificação e a recuperação é monitorada pelas autoridades ambientais.  Em 2007, a iniciativa evoluiu e ganhou força com a aprovação de um projeto de soltura das aves em parceria com o Ibama.

Até o momento, mais de 3 mil pássaros foram devolvidos à natureza. Cerca de 10%, não se recuperam e não podem ser soltos, permanecendo sob os cuidados da fazenda, informa Nélio. Atualmente a fazenda abriga e cuida de 89 aves. Já houve momentos em que abrigou mais de 300 delas.

Oliveiras e safras

O fazendeiro inovador desenhou  o projeto de olivicultura para arcar com os custos tanto da restauração ambiental como da proteção e recuperação das aves. O cultivo de oliveiras entrou em cena em 2011.  O clima e a altitude de Aiuroca indicavam que poderiam ser favoráveis para olivicultura.

A primeira safra comercial ocorreu em 2017. Antes, as safras foram só para teste. Um agrônomo acompanha a experiência há três anos e foram feitas correções no solo, que era muito ácido. “Demorou um tempo, muito calcário e gesso, até colocar o solo no ponto. Há 3 anos, não precisamos mais corrigir o solo”.

 A Olivicultura não tem tradição no Brasil e ainda não há série histórica, observa. “Não sabemos o que vai acontecer no longo prazo. A oliveira é uma árvore de baixa altitude mediterrânea. É uma adaptação que estamos fazendo”, esclarece.

Atualmente 13 hectares estão plantados com 6 mil oliveiras de diferentes variedades (arbequina, koroneiki, arbosana, coratina, grappolo, ascolano e maria da fé) a 1.300 metros de altitude na Caminho do Meio.

A primeira colheita comercial foi realizada, entre fevereiro e março de 2017, e o nível de produtividade foi semelhante ao dos países europeus, com séculos de tradição, ressalta Nélio. O azeite de oliva extravirgem Olibi apresentou índice com menos de 0,1% de acidez, rico em polifenóis.

A colheita e a seleção das azeitonas - que não devem estar completamente maduras - são feitas manualmente. “Além de ser uma atividade econômica, a oliveira simboliza a integração com a natureza por não agredir o solo e frutificar por séculos”, ressalta.

A prensagem a frio é feita em Aiuroca numa unidade de extração terceirizada. Na cidade há quatro marcas de azeite, além da Olibi. A plantação da fazenda Caminho do Meio é a maior delas. O envase é feito na propriedade, depois do processo de decantação e filtragem. 

A safra de 2018 também apontou acidez inferior a 0,1%. Foram produzidos 2 mi litros de azeite, comercializados no site www.olibi.com.br .  A meta ou o ponto de equiíbrio é produzir e vender 6 mil litros/anos, segundo Nélio.

Outros produtos e práticas

Outros produtos estão sendo fabricados para atingir a meta de faturamento. Entre eles: azeitonas verdes e pretas em conserva; azeitonas pretas em passa; azeite em pó aromatizado com orégano e outras ervas; e mudas de oliveiras. As vendas também são feitas no show room da fazenda, loja em Aiuroca e empórios de  MG, RJ, SP, SC, RS, PA, DF e SE.  

Importante: os resíduos da extração ou a pasta de azeitona seguem para a compostagem; as máquinas para ordenha de vacas, milho e grama são supridas com energia solar fotovoltaica; o manejo na propriedade é feito com poucos produtos industriais. Hoje, várias nascentes vertem água e há um lago e açude com bastante peixe.

Tudo que é usado na propriedade - materiais de construção, ração, etc - é comprado  no comércio de Aiuroca.  A mão de obra também é contratada na cidade. Nos períodos de colheita são gerados postos de trabalho e renda para cerca de 30 pessoas. Trabalhadores temporários são contratados o ano inteiro, informa.

A fazenda conta, ainda, com uma estação metereológica que para monitorar a temperatura do ar, velocidade e direção do vento, umidade, radiação solar, chuva, entre outras variáveis. As medições são diárias, explica o fazendeiro.

A Caminho do Meio é certificada e tombada como RPPN-Reserva Particular de Patrimônio Natural.

Campanha

Em 2016, a Olibi deflagrou a campanha ‘Adote sua oliveira’.  Até o momento, 500 pessoas - chamadas de 'olibares' ('amigos da oliva' em tupi-guarani) - adotaram uma árvore por R$ 250/ano e podem participar da colheita de azeitonas e ter seus nomes nas árvores.

Eles recebem um kit de produtos da fazenda (azeitonas em conserva e azeite) como forma de agradecimento e para estimular mais pessoas a contribuírem com o projeto. Os olibares são bem-vindos à fazenda em qualquer época do ano. As aves abrigadas na Caminho do Meio também agradecem o apoio (www.olibi.com.br  ).

 

  • Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2019