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CASO DE SUCESSO - COOPERNOVA COTIA RECICLA

Coopernova é exemplo de empreendedorismo coletivo sustentável

Coopernova é exemplo de empreendedorismo coletivo sustentável

Por Maria Clara Cabral e Vanessa Brito

A situação crítica brasileira em relação à gestão de resíduos sólidos e à falta de empregos representam oportunidade para centenas de pessoas que hoje trabalham na coleta seletiva e reciclagem como forma de transformar a própria realidade e a do país.

Elas encontraram no ‘lixo’ - que atualmente é chamado de ‘resíduos sólidos’ -  a possibilidade de geração de renda, que, por sua vez, produz impactos positivos tanto sociais quanto ambientais em muitos municípios, especialmente naqueles que não dispõem de aterros sanitários e de uma política de gestão de resíduos.

Nas últimas décadas, várias cooperativas e associações de recicladores surgiram em todas as Regiões Brasileiras da necessidade de cuidar dos materiais descartados pela sociedade e mercado, que infelizmente ainda vão parar no meio ambiente e lixões, apesar de seu valor e da possibilidade de serem reciclados ou reaproveitados como matérias-primas de novos ciclos produtivos, inclusive reduzindo a pressão sobre a natureza.

Entre essas entidades cada vez mais presentes na vida nacional, a Coopernova Cotia Recicla, criada no final dos anos 90, é um ótimo exemplo sobre como um empreendimento coletivo, fruto de iniciativas populares, pode beneficiar uma cidade inteira, melhorando a qualidade de vida de sua população.

A história da Coopernova começa com a organização de um grupo de vizinhos do bairro Jardim Nova Cotia em prol da preservação de um córrego, que estava sendo assoreado por lixo e entulhos. A mobilização não foi o suficiente para reverter a situação, mas serviu de combustível para a continuidade dos trabalhos de coleta seletiva e conscientização ambiental no município.

“Com um carrinho de feira passando de porta em porta, a gente coletava lixo para ser reciclado. Ainda nem pensávamos em ser cooperativa”, lembra Marly Andrade dos Santos, atual presidente da Coorpenova, no terceiro mandato.

Antes de criar a cooperativa, Marly trabalhou como empregada doméstica e chegou a empreender uma loja de materiais escolares em sua própria casa. “Até que um belo dia eu resolvi ser presidente de bairro”, conta sorridente. “Tomei gosto pela questão da reciclagem - dizem que entra no sangue da gente. Hoje, são anos nessa luta para deixar um legado”, acrescenta.

Trajetória

Com o suporte da igreja católica, na figura do Padre Luis Antônio, Marly e outras dez pessoas foram inspiradas pelo trabalho de associações de recicladores, que conheceram durante a Campanha da Fraternidade de 1998.

Em 2003, o grupo se uniu a uma cooperativa de prestação de serviços da cidade, que não existe mais. “A gente entendeu que não dava para trabalhar sem estar formalizado, mas não tínhamos número suficiente de pessoas para formar uma cooperativa”, explica.

Uma ONG espanhola ajudou a desenvolver o projeto da Coopernova Cotia Recicla e também doou um contêiner e equipamentos básicos à entidade em formação. A Diocese de Osasco apoiou a compra da primeira prensa com metade dos recursos.

Em 2008, a entidade foi fundada oficialmente por 20 pessoas. Marly conta que, no início,  os cooperados participaram de cursos ministrados pelo Sebrae, viabilizados pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. “Foi quando a coisa tomou rumo”, afirma a presidente da cooperativa, que atualmente conta com 43 cooperados.

Nos primeiros anos, a Coopernova coletou em torno de 20 toneladas de resíduos sólidos/ mês, usando uma Kombi. Hoje, a coleta atinge 210 toneladas /mês, usando com 7 caminhões: 3 são da Rede Verde Sustentável (reúne cooperativas de recicladores de Osasco, Taboão da Serra, Cotia, Santana de Parnaíba, Itapevi e duas da capital); 3 da prefeitura de Cotia, 1 caminhão terceirizado. O trabalho chega a residências, órgãos publicos e, principalmente, empresas e condomínios da cidade e de municípios próximos.

Toda renda para investimento é própria da cooperativa. “Hoje nós conseguimos pagar o aluguel do espaço onde estamos e os serviços de manutenção. Contribuímos com nosso INSS, temos seguro de vida, plano médico e dentário, alimentação e nutricionista”, informa. Cada cooperado recebe remuneração de até R$ 1.700/mês.

A Coopernova ocupa uma área de 350 m² e, agora, conta com mais um galpão alugado de 1.300 m². “Nosso sonho é um dia ter um espaço próprio. Esta é nossa principal meta para os próximos anos”, revela.

No momento, a entidade está elaborando projeto para a implantação da linha de separação de aparas de papel para agregar valor e aumentar a renda dos cooperados.

Educação ambiental

Todo lixo que chega ao galpão da Coopernova passa por uma triagem e é prensado em fardos, para depois serem enviados às indústrias recicladoras. “Nós somos um empreendimento classificador, reciclador é o que transforma”, esclarece.

O trabalho da cooperativa começa muito antes da esteira - onde trabalham 17 pessoas - e precisa da participação da clientela. “Atuamos com educação ambiental em todos os pontos de coleta. Convidamos a população para conhecer a cooperativa, recebemos visitas, e se precisar fazer palestra, a gente também faz”, avisa.

Toda a preparação dos resíduos precisa ser organizada no local de geração pelos cidadãos e empresas para que ocorra a correta separação e enfardamento dos materiais na cooperativa. É fundamental que os materiais cheguem sem estarem misturados com resíduos orgânicos.

É claro que sempre chegam materiais secos e orgânicos misturados, lamenta. Se não houver educação ambiental, a pessoa faz de qualquer jeito, segundo Marly.

Trabalho e dignidade

Apesar da conscientização ser um desafio para quem trabalha na coleta seletiva e reciclagem, a grande dificuldade das cooperativas de recicladores é a falta de reconhecimento por parte do poder público e da sociedade.

“Se nossa categoria fosse vista com olhar justo, poderíamos fazer muito mais do que fazemos hoje”, alerta. “Não viemos do lixão, nenhum de nós foi catador, viemos do desemprego. Fazemos um trabalho digno e queremos ser tratados com dignidade”, dispara. 

Recicladores são profissionais e a Coopernova é um negócio próprio. “Somos empreendedores, digo isto todos os dias”, enfatiza Marly. O trabalho de coleta seletiva é um trabalho como outro, não é motivo para se ter vergonha.  Quem trabalha com reciclagem e lixo também pode crescer, acrescenta.

Há seis anos, os cooperados recebem capacitações do programa da Abihpec-Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. O último ministrado foi sobre logística reversa.

“Nenhum de nós é analfabeto. Todos aqui sabem ler e escrever”, afirma Marly. Murilo Jerônimo Aguiar, cooperado e tesoureiro da entidade está terminando o curso superior de Gestão Ambiental na Faculdade Oswaldo Cruz em São Paulo (SP). Será o primeiro de muitos, prevê a presidente.

Lição aprendida

Marly recomenda às pessoas que estão, neste momento, montando cooperativas de recicladores pelo país afora, que a persistência é fundamental para dar certo. Há muita gente que desiste logo no primeiro obstáculo.

“Temos capacidade de ser grandes empreendedores. A gente não para de melhorar. A Coopernova atingiu o nível que tem hoje, mas queremos continuar melhorando”, insiste.

“Somos seres humanos e podemos chegar aonde a gente quiser”, conclui Marly. (https://www.coopernovacotiarecicla.com/ )

 

 

 

 

  • Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2019