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Entrevista

Poluição plástica dos mares e oceanos será foco da ONU no Dia Mundial do Meio Ambiente

Poluição plástica dos mares e oceanos será foco da ONU no Dia Mundial do Meio Ambiente

Por Vanessa Brito

Para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente, o portal do Centro Sebrae de Sustentabilidade (www.sustentabilidade.sebrae.com.br ) publica entrevista com Regina Cavini, oficial sênior do Programa ONU Meio Ambiente no Brasil. Ela é economista, especialista em Gestão Ambiental e mestre em Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na ONU Meio Ambiente, coordena projetos no país nas áreas de Mudanças Climáticas, Biodiversidade, Químicos e Cidades Sustentáveis.

Regina é membro do Comitê de Especialistas do Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS), instalado em 05.04.2018. Dezessete personalidades que são referência em sustentabilidade no país e exterior integram este comitê, que está subsidiando o CSS com análises e sugestões para a produção de conhecimento, visando a inclusão dos pequenos negócios na nova economia.

Nossa entrevistada possui mais de 15 anos de experiência profissional na agenda socioambiental, trabalhou em diferentes instituições, como o Ministério do Meio Ambiente, onde foi coordenadora do projeto de cooperação multilateral “Negócios Sustentáveis para a Amazônia”; foi diretora de Desenvolvimento Organizacional e diretora de Comunicação e Engajamento do WWF Brasil. Antes de dedicar sua carreira à agenda sustentável, trabalhou na Volkswagen do Brasil e na Ford Motor Company.

Nesta entrevista, Regina revela as prioridades da ONU Meio Ambiente no Brasil e no mundo e destaca que, no Dia Mundial do Meio Ambiente, a instituição fará campanha digital com foco na situação gravíssima da poluição dos mares e oceanos causada pelo descarte incorreto, volumoso e diário de plásticos e microplásticos (via hashtag #AcabeComAPoluiçãoPlástica). Este tipo de poluição está comprometendo a qualidade de vida de peixes e de outros animais marinhos, como também a saúde humana em todo o planeta. (Conheça a história do plástico: https://goo.gl/4N4Rv7 )

Ela reconhece que o crescimento econômico, ocorrido nos últimos anos, tirou milhares de pessoas da pobreza, elevando o nível de renda de um grande contingente, apesar de o padrão de desenvolvimento continuar baseado na exploração da natureza.  

Regina fala a respeito da Agenda 2030 e dos 17 ODS (Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável) e das 169 metas assumidas por 193 países-membros das Nações Unidas; ressalta o papel das pequenas e médias empresas na inovação tecnológica e na sustentabilidade; destaca a parceria entre a ONU Meio Ambiente e Sebrae; esclarece que redução das desigualdades sociais também significa reduzir a desigualdade de direitos entre homens e mulheres e a discriminação de gênero. Para ela, as mídias digitais aumentam a percepção de que o atual modelo civilizatório está em crise e ajudam a demonstrar a necessidade de reduzir as desigualdades ambientais, sociais e econômicas no mundo.

 

CSS: Nos últimos anos, cresce a percepção de que o planeta Terra está perdendo a batalha da preservação ambiental e, consequentemente, do desenvolvimento sustentável. A mídia convencional e as mídias digitais distribuem, diariamente, fotos, vídeos e informações, apresentando uma realidade bastante preocupante.

Qual é a sua avaliação? Ainda há tempo para equilibrar as atividades produtivas com a preservação ambiental, com justiça social e respeito às diversidades culturais?

Regina Cavini: Nos últimos anos, o crescimento econômico contribuiu para tirar as pessoas da pobreza e elevou os níveis de renda de milhões, entretanto, esse crescimento se deu num modelo de desenvolvimento que ainda ocorre às custas do meio ambiente.

O modelo de desenvolvimento que os países-membros das Nações Unidas acordaram em colocar em prática, por meio da Agenda 2030 -  que foi adotada, em 2015, e que sintetiza os chamados Objetivos pelo Desenvolvimento Sustentável (ODS) - inclui metas que devem orientar políticas nacionais e atividades de cooperação internacional no caso dos 193 países que a subscreveram.

Ao todo, são 169 metas, entre as quais: erradicação da pobreza, redução das desigualdades, igualdade de gênero, adoção de padrões sustentáveis de produção e de consumo, garantia de cidades sustentáveis, proteção e uso sustentável dos oceanos e dos ecossistemas terrestres e crescimento econômico inclusivo.

Certamente que a centralidade do modelo está em políticas públicas inovadoras e coerentes com essa agenda e com os ODS. O desafio, agora, é que todos, desde indivíduos, passando pelas empresas e pelos diferentes níveis de governo (federal, estadual e municipal), têm a responsabilidade de fazer isso acontecer. Ou seja, não é apenas uma tarefa de governos, mas novas alianças e parcerias podem contribuir para colocar esse novo modelo em funcionamento.

 

CSS: A alta capacidade de comunicação do mundo contemporâneo (via veículos de comunicação tradicionais e mídias digitais) ajuda a conscientizar e mobilizar a sociedade, mercado e governos, mas pode também estar exagerando com uma visão negativa da realidade, em termos ambientais e sociais?

Regina Cavini: Não acredito que a visao negativa seja exagerada. Existe uma crise do atual modelo civilizatório. Os desafios são enormes e a compreensao sobre eles aumentou.  O que as novas midias ajudam a evidenciar, ainda mais, é a necessiade imperiosa de reduzir as desigualdades econômicas, sociais e ambientais. 

A redução das desigualdades ambientais passa por garantir acesso à água de boa qualidade para todos e toda; pela oferta de alimentos saudáveis sem agrotóxicos para todos e todas; a melhoria da qualidade do ar nas cidades; e a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas para todos e todas, mas em especial, para as populações mais pobres, que são as mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos que ocasionam deslizamentos de terra e cheias. Redução das desigualdades também significa reduzir a desigualdade de direitos entre homens e mulheres e reduzir a discriminação de gênero.

A comunicação através da mídia e das TICs não é apenas um meio para a troca de conhecimentos e tomada de consciência sobre as questões ambientais, mas também permite que as pessoas participem das mudanças climáticas, poluição, declínio da biodiversidade e destruição de ecossistemas, que ocorrem em áreas distantes da localidade das pessoas, evidenciando a dimensão global dos problemas ambientais.

 

CSS: Os pequenos negócios equivalem a 98,5% das empresas formais brasileiras, optantes do regime de tributação conhecido como Simples, de acordo com o Anuário do Trabalho Dieese/Sebrae 2012. Eles somam cerca de 12,4 milhões de empreendimentos, geram 54% dos empregos formais, são responsáveis por 44% da massa salarial do país e contribuem com 27% do PIB (Produto Interno Bruto).

Como avalia o papel desses empreendimentos, que trabalham silenciosamente, mas que contribuem para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)?

Regina Cavini: O setor das pequenas e médias empresas é um ingrediente vital para uma economia de mercado. Elas são responsáveis por grandes contribuições para a agregação de valor e para o emprego. Contribuem substancialmente para o empreendedorismo e a inovação e é por isso que as PME precisam de políticas especificamente voltadas para elas de forma a obterem o apoio financeiro e tecnológico para promoverem a sustentabilidade ambiental no setor privado.

A ONU Meio Ambiente e Sebrae se uniram para estimular que os pequenos negócios também contribuam para a Agenda 2030, por meio do desenvolvimnto de soluções ecoinovadoras, estruturando empresas que, desde o início, ja se estruturem em torno de um modelo de negócios, que leve o meio ambiente em consideração.

 A resposta que se obteve foi muito interessante e foram apresentadas soluções, que vão desde a subsitituição do uso de agrotóxicos pelo controle biólogico de pragas, passando por novas formas de despoluição da água contaminada por óleos, até a filtração de águas de cisternas por meio de energia solar. E todas as tecnologias são brasileiras, desenvolvidas aqui pelos pequenos negócios. O potencial das pequenas empresas na geração de bens e serviços para lidar com problemas ambientais é enorme e com muito potencial, como bem demonstrou a parceria.

 

CSS:  Qual é o foco as ações da ONU Meio Ambiente em nosso país?

Regina Cavini: A ONU Meio Ambiente considera o Brasil como um país prioritário para sua atuação e por isso tem um escritório em Brasília.

O Brasil é um país que possui um gigantesco patrimônio natural e cultural e fez avanços impressionantes na redução do desmatamento, na última década, mas, recentemente, o desmatamento ilegal vem ganhando terreno. O  desafio de manter a floresta e de melhor manejá-la abrangem uma variedade de aspectos que  exigem uma abordagem integrada tanto dos problemas quanto das solucões (água, produção de alimentos, desenvolvimento do mercado verde, biodiversidade, serviços ambientais etc).

Simultaneamente o país enfrenta os mesmos problemas “pós-modernos” de outros países tais como: a concentração da população em cidades, que aqui chega a 80%; a falta de saneamento e de água tratada; o descarte inadequado de resíduos; e a emissão de gases de efeito estufa. Em termos globais, as cidades são responsáveis por 60% das emissões de gases de efeito estufa, por 50% da geração de resíduos e por 54% da população mundial. Então, os desafios ambientais que se colocam para a qualidade de vida nas cidades é uma de nossas prioridades.

Em termos de desenvolvimento econômico, o Brasil é um país industrializado com um mercado consumidor muito grande, com uma enorme demanda por conhecimento sobre como inovar e incorporar melhorias tecnológicas nos processos industriais, para iniciar a transição para a produção de baixo carbono. Atuar nas cadeias de valor, ampliando as oportunidades para empresas e consumidores ofertarem e terem acesso a produtos mais saudáveis, do ponto de vista ambiental, é outra de nossas prioridades. 

 

CSS: Atualmente percebe-se que as pessoas são muito sensíveis e atuantes em relação ao meio ambiente e, às vezes, não associam as questões econômicas, sociais e culturais à ambiental. O conceito da sustentabilidade ainda é de difícil compreensão para as pessoas em geral?

Regina Cavini: Não é difícil para as pessoas entenderem que o ambiente está intimamente associado a questões econômicas, sociais e culturais. As novas mídias digitais aceleram essa percepção, eu acredito. A comunicação instantanêa sobre desastres ambientais, como por exemplo, o acidente de Mariana que infelizmente ocorreu em nosso país, deixa evidente que os problemas ambientais impactam diretamente as pessoas, com repercussões que chegam a atingir outras pessoas, que estão a muitos quilômetros de distância da origem do problema. 

Mas o que talvez ainda nao esteja muito difundido e compreendido são as novas descobertas, que o conhecimento científico tem feito e o impacto das ações humanas sobre o planeta, como por exemplo, os estudos recentes sobre o lixo no mar. Estudos evidenciaram que o lixo é encontrado em todos os oceanos e mares do mundo, mesmo em áreas remotas, longe do contato humano e fontes óbvias do problema, e até mesmo, em sedimentos de águas profundas.

O crescimento contínuo da quantidade de plásticos produzidos e resíduos sólidos descartados, combinado com a taxa muito lenta de degradação da maioria dos itens, está levando a um aumento gradual dos resíduos plásticos marinhos encontrados no mar. Se continuarmos a gerar e descartar resíduos plasticos como vimos fazendo, em 2050, haverá mais plásticos do que peixes nos mares.

Um dos mais graves problemas são os microplásticos - peças de plástico que variam em tamanho de 5 mm a nano proporções. Os microplásticos primários incluem plásticos encontrados em produtos de cuidados pessoais e cosméticos e produtos de resina plástica de pré-produção. Microplásticos secundários são criados quando peças de plástico maiores se quebram em pedaços menores.

Essas partículas podem entrar nas cadeias alimentares marinhas e potencialmente representam enormes riscos para o meio ambiente e para a saúde humana. Eles são facilmente ingeridos por peixes, mexilhões e outros animais marinhos. Então, evidenciar esses problemas aparentemente não tão visíveis e demonstrar os impactos sobre a saúde humana é uma prioridade da ONU Meio Ambiente, de forma a sensibilizar a sociedade sobre a necessidade de agir forte e imediatamente sobre o problema.

 

CSS: Diante das urgências do planeta e da humanidade, como avalia a trajetória dos movimentos, eventos e conferências, realizados até o momento, que têm o objetivo de mudar a economia, especialmente a produção e consumo em termos mundiais? Seria possível acelerar este processo de transformação, com propostas concretas, por exemplo, para lidar com o aquecimento global?

Regina Cavini: Já existem propostas concretas no âmbito das Nações Unidas para lidar com os problemas ambientais, os chamados Acordos Ambientais Multilaterais, que foram acordados pelos países-membros e que significam compromissos que os signatários se comprometem a implementar, dentro de certo período de tempo também acordado.

Existem acordos em várias áreas como comércio, saúde, trabalho, dentre outros. Na seara ambiental existem acordos sobre Biodiversidade, sobre susbstâncias e resíduos químicos, sobre mares e oceanos e as mais conhecidas, talvez por serem as mais divulgadas recentemente, sobre clima, cuja conferência em 2015, resultou no Acordo de Paris, que foi ratificado pelas 195 partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e pela União Europeia, durante a 21ª Conferência das Partes (COP21).

O cerne desse acordo entre os países é manter o aquecimento global “muito abaixo de 2°C”, buscando ainda “esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais”. O texto final determina, no que diz respeito ao financiamento, que os países desenvolvidos deverão investir 100 bilhões de dólares por ano em medidas de combate à mudança do clima e adaptação em países em desenvolvimento.

A inovaçao deste acordo foi que os países definiram voluntariamente qual o esforço que farão para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa, definindo metas nacionais, as chamadas de acordo com sua capacidade de implementação.

O Brasil comprometeu-se a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005, em 2025, com uma contribuição indicativa subsequente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% abaixo dos níveis de 2005, em 2030.

Para isso, o país se comprometeu a aumentar a participação de bioenergia sustentável em sua matriz energética para aproximadamente 18%, até 2030, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, bem como alcançar uma participação estimada de 45% de energias renováveis na composição da matriz energética em 2030.

 

CSS: O que podemos comemorar no Dia Mundial do Meio Ambiente em 2018?

Regina Cavini: Em 2018, nós vamos chamar a atenção das pessoas para a campanha de combate ao lixo plástico com o tema e hashtag “#AcabeComAPoluiçãoPlástica”. A data chama governos, setor privado, comunidades e indivíduos a reduzirem a produção e o consumo excessivos de produtos plásticos descartáveis, que contaminam nossos oceanos, prejudicam a vida marinha e afetam a saúde humana, como já mencionei anteriormente.

A situação é grave. Ao longo da última década, a humanidade produziu mais plástico do que em todo o século passado. Por ano, são consumidas entre 500 bilhões e 1 trilhão de sacolas plásticas em todo o planeta e, a cada minuto, são compradas 1 milhão de garrafas plásticas. Metade do plástico consumido pelos humanos é de uso único e, anualmente, pelo menos 8 milhões de toneladas de plástico vão parar nos oceanos — é como se a cada minuto despejássemos nos mares a carga inteira de um caminhão de lixo plástico. O material representa atualmente 10% de todos os resíduos gerados pelo homem.

Todos podemos agir imediatamente para diminuir o lixo plástico, mudando nossos hábitos, por exemplo, deixando de utilizar canudos plásticos, rejeitar sacolas plásticas, dentre outras medidas que estão à mão de todos e todas.

O que podemos comemorar é que, no Brasil, a discussão sobre a poluição plástica vem avançando devido a esforços do governo brasileiro e outros atores da sociedade, por meio de campanhas para o consumo consciente de sacolas plásticas, por meio da assinatura do Acordo Setorial de Logística Reversa de Embalagens. Mais recentemente, a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar pelo Ministério do Meio Ambiente cria o ambiente institucional necessário para avançar este debate fundamental junto à sociedade brasileira.

  • Segunda-feira, 4 de Junho de 2018
  • Cidades Sustentáveis, Consumo consciente, Resíduos Sólidos

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