Casos de Sucesso

De-Lá

De-Lá

Com o charme da tradição mineira, a Produtos De Lá é mais do que um empório de produtos alimentícios. A ideia de Laura Cota foi criar uma ponte entre pequenos produtores e consumidores, que muitas vezes não possuem um canal certo para a venda. "Sempre ouvi meu pai falar que produzir não era o problema, e sim vender, escoar a produção", conta a empresária. Atenta a esta realidade, ela buscou uma forma de intermediar o processo, com a visão de desenvolvimento e comércio justo para os envolvidos.

Laura viveu a infância e adolescência junto ao comércio de seus pais, em João Monlevade (MG), que seguiram a tradição da família na panificação. Já na faculdade de design, em Belo Horizonte (MG), ela se deparou novamente com a realidade dos pequenos produtores. Por meio da Feira do Empreendedor, ela teve contato com algumas mulheres de pescadores da cidade de Três Marias (MG). Elas haviam passado por um projeto social de uma ONG canadense, que ensinou a técnica para defumação de peixes, e necessitavam de embalagens para comercialização do produto final. Após análise do caso, Laura assumiu o projeto para sua graduação. Mas, apesar das estratégias de marketing e venda, viu a iniciativa ser finalizada depois de algumas barreiras, e a comunidade não desfrutar do objetivo inicial do projeto.

Foi, então, que ela mudou-se para o Rio de Janeiro, onde iniciou seu mestrado. Intrigada com a experiência anterior, ela buscou entender a dinâmica da inovação social e o porquê da mortalidade dos projetos sociais. Neste período, surgiu a oportunidade de implementação de uma feira de agricultura familiar dentro do campus da UFRJ. "Como estava muito próxima dos agricultores, eu vivenciei a angustia da venda. Era um grupo, mas representava um universo muito maior", relembra.

Perceber esta realidade foi outro marco para a estudante. Em dois momentos distintos ela havia se deparado com a mesma situação: produtores que possuíam um bom produto, mas esbarravam na dificuldade da venda. Ela passou, então, a pesquisar as redes de distribuição da agricultura familiar: Ceasa, cooperativas e diferentes formas de intermédio. O seu projeto do mestrado resultou no mapeamento dessas redes, e a seguinte conclusão: o problema da conexão entre compradores e fornecedores não era o numero de intermediários neste processo, e sim a dinâmica do relacionamento, a presença da visão de comércio justo e de relações mais próximas.

Ao mesmo tempo em que desenvolvia sua pesquisa, seus pais, pequenos produtores, passaram por uma crise financeira. Com a chegada de uma grande mineradora, houve um êxodo da mão de obra, e já não havia interessados na produção e venda de seus produtos na região. "Na época, decidi revender os produtos de Minas no Rio de Janeiro, dentro da faculdade. Não apenas dos meus pais, mas de outras pessoas. A cada entrega, as pessoas queriam saber quem eram os produtores, qual a história do Sr. João, que fazia o queijo. Percebi que as pessoas não queriam só comprar, elas queriam conteúdo. E eu decidi não apenas vender o produto, mas sim conectar as pessoas, os dois pontos da cadeia: contar para as pessoas a história dos produtores, e para os produtores dar o feedback para que eles pudessem melhorar", explica.

Nasce um novo negócio

A iniciativa foi o ponto inicial para a empresa. De volta a Belo Horizonte, o projeto foi sendo formalizado e o plano de negócios saiu do papel. O objetivo era tornar-se intermediário, fazer uma ponte justa entre pequenos produtores e consumidores, contribuindo com a sustentabilidade e maior dignidade do meio rural. "Mapeamos os produtores, qualificamos e ajudamos a ajustar o processo produtivo, sempre respeitando o seu modo de fazer. Se o produto é bom, tem história legal e existe a necessidade do produtor, ele passa a ser nosso fornecedor", conta Laura.

A primeira ideia foi vender virtualmente, e o ponto de distribuição escolhido foi em uma galeria do bairro Savassi. "Não chamávamos de loja, e sim de 'ponto de encontro' – um local bonito, aconchegante, que quem entra sempre sai com um pouco mais do que quando entrou. A proposta sempre foi essa: entre, sente, vamos tomar um café e descontrair".

Em pouco mais de um mês, uma revista de alcance estadual classificou o 'ponto de encontro' como Empório Gourmet, e o negócio ganhou visibilidade. O antigo espaço ficou pequeno e um novo local foi inaugurado. Já no primeiro mês da mudança, o faturamento aumentou em 425%. A meta passou de dois para quatro novos produtos por mês. "Foi uma nova fase, um aprendizado. Começamos com 15 produtos, hoje são mais de 90. E a ideia não é pegar muitos produtos do mesmo produtor, mas sim dividir para poder impactar mais produtores, dar oportunidade para mais pessoas", ressalta.

A empresa também ajuda a divulgar o trabalho do produtor e, consequentemente, a encontrar novos compradores. "A venda em si não escoa toda a produção de cada fornecedor, mas ajuda a aumentar o interesse. Temos um fornecedor, por exemplo, que começou com a Produtos De Lá e uma casa de vinhos; hoje já distribui em diversos pontos, inclusive no mercado municipal", conta orgulhosa.
Para Laura, o propósito da empresa é bem delineado. "Somos muito firmes quanto a isto: valorização do pequeno. Não fornecemos produtos industriais, mas sim aqueles cujos produtores dependam disso. O objetivo é criar um canal de venda para quem não tem, dar chances, oportunidades para crescer".

Histórias de Lá

Hoje, a empresa atende clientes de diversos estados, interessados em conhecer um pouco mais sobre estas histórias. Para isso, foi criado o projeto Histórias de Lá, onde o próprio fornecedor é o locutor. Em formato de e-book, ele relata sua história, mostra fotos do local e pessoas envolvidas. "Os consumidores querem saber a historia. Quando eles vêm a loja, contamos diretamente, mas a ideia é que o próprio fornecedor conte, olho no olho, com detalhes que só ele sabe. A internet tem possibilitado essas novas relações de confiança", explica Laura. A verba foi conseguida por meio de crowdfunding, um financiamento coletivo onde investidores (geralmente pessoas físicas) de diversos locais disponibilizam verba para determinadas ações.

Para a empresária, ser sustentável faz parte da missão da empresa. "Não é uma obrigação, a gente nasceu para isto. Sustentabilidade também está ligada a questão cultural, manter as tradições. Acredito muito nisto como um caminho para uma nova reconfiguração da sociedade, mais justa e mais digna. Vemos nos clientes e na mídia, as pessoas entendem o que fazemos e se apropriam da ideia junto com a gente. Junto ao meu movimento de mudança há também um movimento de mudança das pessoas, que estão cansadas do modelo tradicional. Isto me surpreendeu e me deixa feliz todos os dias", ressalta.

  • Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017
  • Negócios de Sucesso

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